Se tem uma notícia boa para começar o dia, é esta: as mulheres estão tomando a frente dos negócios no Brasil. E não é força de expressão.
Segundo o mais recente relatório GEM (Global Entrepreneurship Monitor), do Sebrae, mais da metade (54,6%) dos brasileiros com intenção de empreender até 2026 é mulher .
O número é expressivo e confirma uma tendência que vem se desenhando nos últimos anos: a consolidação do empreendedorismo feminino como força central na economia brasileira. Não é só uma questão de quantidade, mas de qualidade. O modelo de negócio que as mulheres estão trazendo é diferente, e isso está mudando a lógica do mercado.
Um novo modelo mental
Tatyane Luncah, CEO e fundadora da Escola Brasileira de Empreendedorismo Feminino (EBEM), resume bem o fenômeno: “As mulheres estão trazendo um novo modelo mental para o segmento, baseado em colaboração, propósito e inovação sustentável. Isso muda a lógica do mercado” .
Ela tocou num ponto essencial: colaboração. Enquanto o modelo tradicional de negócios sempre foi baseado na competição acirrada (“o cliente é meu, não olha pro lado”), as mulheres estão construindo redes de apoio, trocando conhecimento e abrindo portas umas para as outras.
Esse protagonismo colaborativo, como define Tatyane, é uma marca da nova economia . E faz todo sentido: num mundo cada vez mais conectado, quem colabora cresce mais do que quem compete isoladamente.
Cinco tendências que explicam esse movimento
Com base na análise do cenário atual, a especialista reuniu cinco tendências que explicam por que o empreendedorismo feminino está liderando as novas aberturas de negócios no Brasil .
1. Negócios com propósito e impacto
As empreendedoras estão cada vez mais focadas em resolver problemas reais e gerar impacto social. “As mulheres estão abrindo empresas alinhadas à ESG, economia circular e saúde mental — e isso deve crescer de forma acelerada, já que somos muito engajadas e preocupadas com essas causas”, explica Tatyane .
Não é sobre fazer marketing com causa. É sobre construir negócios que, por si só, já nascem com compromisso de transformação. E o mercado está valorizando isso.
2. Profissionalização como prioridade
Outra tendência forte é a busca por formação. A empreendedora brasileira quer se capacitar, aprender mais sobre o nicho em que atua, entender de dados, de gestão, de estratégia.
“Ela sabe que estudo e dados são essenciais para crescer com consistência. Nós atuamos nesse apoio com a EBEM e já capacitamos milhares de mulheres, e vemos essa demanda aumentar cada vez mais”, afirma a executiva .
É a profissionalização do “jeitinho”. Não dá mais para empreender só na base da intuição. Dados e conhecimento viraram moeda corrente.
3. Digitalização como motor
A tecnologia deixou de ser diferencial e passou a ser base do negócio. Da gestão ao marketing, da venda ao relacionamento com clientes, o digital é o chão de fábrica da empresa moderna.
“Da gestão ao marketing, passando pela venda e pelo relacionamento com clientes, o digital deixou de ser diferencial e passou a ser base. As empreendedoras estão entendendo isso e adotando ferramentas que antes eram usadas apenas por grandes empresas”, destaca Tatyane .
O que antes parecia distante – um sistema de gestão caro, uma ferramenta de automação sofisticada – hoje está acessível até para o microempreendedor individual. E as mulheres estão usando.
4. Redes de apoio e comunidades
A consolidação de redes femininas, formais ou espontâneas, segue como uma das maiores alavancas do setor. Grupos de WhatsApp, comunidades no Telegram, encontros presenciais, mentorias coletivas.
“A consolidação de redes femininas, formais ou espontâneas, seguirá como uma das maiores alavancas do setor. O público feminino está empreendendo junto, trocando conhecimento e abrindo portas umas para as outras” .
Juntas, elas chegam mais longe. E mais rápido.
5. Autonomia financeira e segurança de carreira
Fatores econômicos e sociais também impulsionam o avanço do empreendedorismo feminino. De acordo com o IBGE, mais de 41 milhões de domicílios têm mulheres como principais provedoras .
“Elas precisam buscar independência, flexibilidade e segurança para tomar suas próprias decisões profissionais. Empreender se tornou uma alternativa real e estratégica para isso”, finaliza Tatyane .
Num mercado de trabalho ainda cheio de desigualdades – mulheres ganham menos que homens na mesma função, têm menos oportunidades de ascensão –, empreender vira caminho de autonomia.
O que os números mostram
Os dados do Sebrae não deixam margem para dúvida: a próxima década será marcada por uma transformação profunda no perfil do empreendedorismo brasileiro. Ver mais da metade das intenções de empreender vindas de mulheres é um sinal claro de reconfiguração do mercado .
E essa reconfiguração é boa para todo mundo. Mais diversidade significa mais inovação, mais pontos de vista, mais soluções para problemas que antes eram ignorados. Significa uma economia mais plural e, por consequência, mais forte.
E os desafios?
Não dá para pintar um arco-íris sem falar das nuvens. Empreender no Brasil ainda é mais difícil para mulheres. O acesso a crédito, por exemplo, é mais restrito. A dupla jornada – cuidar da casa, dos filhos e do negócio – ainda recai desproporcionalmente sobre elas. O preconceito, infelizmente, ainda existe.
Mas os números mostram que, apesar das dificuldades, as mulheres estão avançando. E avançando com um modelo de negócio que pode ser justamente a resposta para muitos dos problemas estruturais da economia brasileira: negócios mais sustentáveis, mais colaborativos, mais conectados com propósito.
O recado para o mercado
Se você é empreendedor, investidor ou gestor, fica o recado: quem não estiver atento a esse movimento vai perder o bonde. As mulheres estão transformando o mercado, criando novos nichos, estabelecendo novas formas de relação com clientes e fornecedores.
Ignorar essa força é, no mínimo, miopia estratégica.
E para as mulheres que estão pensando em empreender, fica o incentivo: os dados mostram que o caminho é possível. As redes de apoio existem. A capacitação está aí. O mercado está mudando – e vocês são protagonistas dessa mudança.
E você, mulher empreendedora: qual foi o maior desafio que enfrentou ao abrir seu negócio? Compartilha nos comentários sua história!